Epilogo
Uns dos meus autores favoritos é O. Henry, um escritor do troco de século 19. Como adulto, ele morava na minha cidade natal. Escreveu um conto famoso e inolvidável perto do meu sitio favorito em Nova Iorque, Union Square. Gosto do ir ao local, sentar no assento onde ele escreveu o conto, e imaginar as ideais chegando a sua cabeça e a cena que tinha ao redor em quanto ele escrevia.
Decidi retomar o conto de O. Henry, “O presente do Magi”, e reescrever o conto, para a minha realidade agora. Já não é um conto dum casal jovem em Nova Iorque no ano 1904, senão um casal celebrando 25 anos juntos, em São Paulo, no ano 2017.
O presente do Magi – atualizado e localizado
Noventa e oito reais. Era tudo. Moedas economizadas, pouco a pouco, pechinchando com insistência na feira cada domingo. Em dois dias, Dolores festejaria suas Bodas de Prata e ainda não tinha nada para seu marido, Thiago… seu melhor amigo na vida.
A dona de casa deu uma olhada no apartamento de um cômodo no Bom Retiro. Como as coisas mudaram em seis meses! Antigamente, Thiago tinha alta renda, o suficiente para comprar uma cobertura em Moema com mais banheiros que pessoas habitando. Com a crise econômica e política no país, tiveram que mudar de padrão de vida. O mais difícil foi anunciar aos filhos que teriam que deixar o estúdio no estrangeiro e procurar emprego no Brasil, deixando os estudos para depois. Ela chorava diariamente de vergonha.
Quando estavam no processo de vender tudo, prometeram jamais se desfazerem de dois pertences que tivessem valor afetivo para cada um deles. Para Thiago era sua coleção de copos Skol das Olimpíadas 2016. A cada quatro anos, desde ser criança, ele assistia às Olimpíadas onde quer que fossem. Foi com muito orgulho torcer pelo seu país no Rio de Janeiro. Ele comprou todas os copos que completavam o conjunto de quarenta e duas, uma para cada evento. Sou faltava a ginástica rítmica.
O outro pertence eram os cabelos de Dolores. Eles nunca foram tingidos ou tratados. Mantiveram-se assim, fortes, brilhantes, e longos, com sua cor natural.
Se prometeram comemorar suas Bodas de Prata. Seria somente uma cerimônia simples na igreja, sem festa nem anéis novos. Trocariam presentes singelos, que representassem a força desse amor de vinte cinco anos de casamento.
Ela dedicou muitas horas felizes planejando algo bonito para oferecer para Thiago. Encontrou no Amazon o copo que faltava, da ginástica rítmica! Só custou 90 reais, frete incluído. O problema era a alfândega, ou como dizem nos Correios, o Imposto de Importação e pagamento da Taxa para Despacho Postal. Como foi mandado dos Estados Unidos, ela teve que pagar 254 reais só para liberar um copo de plástico de origem brasileira para poder-se voltar de novo.
Depois de pensar longo tempo, ela tomou uma decisão. Tomou o metrô até a Rua Augusta. Subiu as escadas para chegar ao local onde se lia numa placa “Dona Peruca e Tatuagens.”
– Quero vender meu cabelo – falou Dolores.
– Ah, sim? – a senhora revisou Dolores com uma olhada depreciativa. – 300 reais –
Instantes depois, Dolores saiu apressada, com um chapéu novo que comprou com os 50 reais restantes. Correu para chegar ao Correio na Rua Anhaia Melo 686 antes das cinco da tarde. Chegou a tempo, pagou o Imposto de Importação e pagamento da Taxa para Despacho Postal, recebeu seu pacote, e voltou para casa tranquila e feliz por ter o presente perfeito para seu marido.
Não ia ver Thiago até chegar à igreja no domingo, como combinaram, para fazer de conta que era o dia do seu casamento. Se preocupava porque, sem o cabelo, ela não parecia com a mulher com quem ele se casou.
Ao que parece, eles não planejaram bem e o domingo se encontraram fora da igreja, sem querer. Dolores sorriu para seu marido. Seus olhos estavam fixados nela com uma expressão estranha.
Ele perguntou – Você cortou seus cabelos? –
– Cortei e vendi – disse Dolores. – Eu sou eu mesma sem meus cabelos, não é? Se eu o fiz, foi pelo amor que tenho por você.
Thiago pareceu acordar de repente de seu transe e abraçou sua amada. Thiago retirou um envelope do bolso de seu casaco.
– O fato de ter cortado os cabelos não muda em nada o meu amor por você – disse ele. – Desembrulhe este envelope e entenderá por que eu fiquei desse jeito. –
Dedos trêmulos abriram o envelope. Então ouviu-se um grito de imensa alegria, que rapidamente se transformou em lagrimas. Lá estava um vale-presente para fazer tereré na loja mais chic da Galeria Presidente, onde Dolores ia muito no passado.
Enfim, ela foi capaz de levantar os olhos molhados e dizer com um sorriso:
– Meus cabelos vão crescer, Thiago!
Thiago ainda não tinha visto seu presente. Ela lhe entregou, ansiosa.
– Não é uma maravilha, Thiago? Já tem o jogo completo.
Thiago sorriu com um misto de carinho e emoção.
– Dolores – disse ele – guardemos nossos presentes por algum tempo e desfrutemos nosso dia.
– Sim, Thiago. Tenho mais uma surpresa para você. Saindo daqui, vamos diretamente ao lago do Parque Ibirapuera, onde nos conhecemos. La estarão nossos filhos com 38 amigos queridos, para brindarmos com sua coleção de copos!
– Seria maravilhoso, meu amor, mas como e possível, se já a vendi para comprar seu presente?
Há vinte anos atrás, quando os celulares ainda não eram inteligentes, meu irmão teve uma ideia genial: