Por que, no estrangeiro, quando completamos uma tarefa tão simples como mandar um pacote pelo correio, nos faz sentir como Einstein quando ganhou o prêmio Nobel?
É somente um pequeno sucesso.
Achar uma agência pelo sitio web,
chegar depois do trabalho e antes de fechar,
explicar o que precisa,
e pagar.
Mas fazer sem ajuda, sem GoogleTranslate, sem desespero, é de se emocionar.
Conversar com um taxista na língua dele,
pedir a pizza certa por telefone,
resolver um problema no banco,
usar transporte público e não se perder…
acontecimentos para comemorar dando pulos de alegria.
Assim, sentimos que somos capazes de nos virar.
Cada tentativa nova é um treino para a próxima.
Por que em meu pais, me dizem que quando falo outras línguas,
parece que um fantasma me incorpora?
É somente uma língua que eles não falam, com maneirismos que não usam.
Mas cada língua traz consigo uma cultura.
Me sinto mais solta em espanhol que no meu inglês natal.
Assim, não é um fantasma que me controla.
É meu estado de espírito que é outro.
Por que, no México, me diziam que gringo não era uma palavra depreciativa?
É somente um termo para designar alguém dos Estados Unidos da América.
Mas quando eu me descrevia como gringa, se incomodavam.
Quando falava de amigos, não brancos, também como gringos,
se incomodavam mais ainda.
Explicavam que os outros são gringos, mais já eu, não…
E os amigos… nunca?
Assim, gringo não é uma palavra neutra.
Tem conotações inúmeras.
Por que, no Peru, comentaram que eu aprendi rápido o senso de humor deles?
É somente possível após muito tempo num lugar,
não apenas com as duas semanas que eu tinha.
Mas eles insistiam que era como se eu sempre tivesse morado lá.
Conheceram poucos estrangeiros, e menos ainda que falassem sua língua.
Assim, talvez nos entendêssemos duma maneira que eles não esperavam.
Era uma comunicação fluída graças ao humor.
Por que, na América Latina, ao saberem que sou de família judia, me olham diferente?
É somente um detalhe que não conheciam sobre mim.
Mas de repente perguntam sobre Israel, comida kasher, e quipás.
Começam a analisar meu nariz, minha relação com dinheiro, e minha honestidade.
Assim, nunca menciono que sou ateia. Confunde demais. Ou espanta.
Não seria mais simples falar que sou católica, para encerrar o assunto?
Por que na Costa Rica, começaram a me cobrar o preço tico?
É somente para residentes do pais, uma coisa que eu nunca fui.
Mas visitei tantas vezes, e fiz tantos amigos, que me viam como tal.
Eu tentava pagar o outro preço, mas eles não aceitavam.
Assim, ficava desconsertada: Achava a taxa justa.
Sem ela, não poderiam visitar os tesouros naturais e históricos do seu próprio pais.
Por que, nas festas do México, imaginavam que eu era Spring Breaker?
É somente nos feriados de março que chegam os filhinhos de papai,
para fazerem sua bagunça.
Mas queriam entender o porquê desse comportamento.
Se eram sempre assim, desinibidos, ou somente quando estavam fora do seu habitat.
Assim respondia que alguns acham que as regras da sociedade só são válidas no seu país.
Ao contrário, eu estava lá para estudar, trabalhar e vivenciar novas experiências.
Mas, quando minha paciência esgotava, eu perguntava:
– Você sabia que minha mãe é judia? –
Como viajante, eu preciso responder a perguntas complicadas, estilo:
Como foi possível para Trump chegar a presidência e permanecer lá?
Mas tenho que reconhecer que faço perguntas semelhantes,
sem saber, sem querer ofender, só tentando compreender.
Por que, na Argentina, perguntei a vários comerciantes se eram nativos do país,
porque não correspondiam ao padrão de argentino que eu tinha na cabeça.
Como podia eu não entender melhor a diversidade,
sendo duma das cidades mais diversas do mundo?
Não vou esquecer o silêncio que seguia cada vez que fazia essa pergunta,
no meio de uma conversa animada e descontraída.
Por que não percebi imediatamente que estava fazendo a mesma coisa que tantos me haviam feito, usando o meu exterior para julgar meu interior?
Por que, na República Dominicana, ficava tão envergonhada quando adolescentes gringos imitavam o inglês do meu amigo dominicano?
Como podiam falar com desrespeito a alguém que cuidava tanto deles?
Não conseguiria dar a outra face como você faz – eu falei para ele um dia.
Por que você se preocupa? – ele respondeu. – Eu gozo do espanhol deles também,
só que às escondidas.
Por que, no Brasil, corrigi tão indignada uma professora,
quando falou que na Índia não falam inglês?
Como assim, se foram os ingleses que colonizaram a Índia e lá deixaram sua língua?
Não pensei que minha amiga, com pais indianos, respondesse da maneira que fez.
– Por que ficar chateada? Hoje contribuímos com a educação de alguém. –
Por que, no Equador, eu achei tão engraçado escutar música bachata, um ritmo dominicano?
Como podia parecer estranho ver a mesma dança em dois países que falam a mesma língua?
Não é mais normal que ver as influências do meu país pelo mundo afora?
Por que não reagi da mesma maneira quando vi brasileiros tomando Heineken e cantando Amy Winehouse?
Mesmo sem sair do país, encontramos diferenças regionais.
Voltemos ao correio.
Em Nova Iorque, os atendentes, protegidos atrás de um vidro ante choque,
demonstram que eu estou incomodando ao pedir um selo.
Em Minnesota, os atendentes parecem o vizinho dos Simpsons, Ned Flanders.
Cumprimentam com um sorriso que me deixa desconfiada de tanta delicadeza.
Por que as semelhanças nos surpreendem tanto? E as diferenças também?
Se somos viajantes e sabemos que é assim?
Qual é a diferença entre a boa intuição e o real preconceito?
Como uma aeromoça decide em que língua perguntar se você quer uma bebida?
Viajar nos ajuda a abrir a mente ou só criar ideias de como são os outros?
Quando uma generalização se torna em preconceito?
É somente fazendo perguntas que podemos nos entender melhor.
Tudo o que você acha que sabe agora era novo há algum tempo atrás.
Imagine tudo o que ainda há a aprender.
É hora de viajar…