O texto seguinte é o roteiro para uma peça que eu fiz em São Paulo, Brasil no dia 14 de junho de 2018. Tentei recriar a experiência aqui, da melhor maneira possível, mas obviamente ler um documento não tem nada a ver com assistir a uma peça. Pode ser difícil entender tudo para alguém que não me conhece, especialmente quando falo do meu físico e meus sotaques. Use sua imaginação aguçada. Uma gringa no palco… uma tela ao fundo… algumas imagens… Pronto? Então, vamos lá!

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Obrigada, obrigada. Quero agradecer ao apresentador… por pronunciar corretamente o meu nome. Não é fácil. Nem eu consigo às vezes. Quando criança, meu nome era Ruby, uma coisa que no Brasil quase ninguém entende. Na Republica Dominicana, sou Rubí como a malvada da telenovela mexicana. Só que eu sou mais doce… e menos gata.

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No Brasil, sou Rubi. O erri não é natural para mim. Quando conheço alguém, sempre falo – Rubi, como a pedra preciosa… meio vermelha, meio vinho.

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Me olham e dizem – Preciosa você não é, mas encorpada como um bom vinho, talvez.

Mas, meu nome não é nada comparado com meu sobrenome.

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Em português, lençóis.

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Também é uma cidade brasileira.

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Eu sou professora de crianças. Um dia uma mãe se dirigiu a mim, – Excuse me, Ms. Sheets.

Eu respondi, – Eu prefiro que me tratem por Ms. Ruby.

É que… a pronúncia de Ms. Ruby não tem outra interpretação, mas Ms. Sheets, essa sim, tem. Tem pouco a ver com lençóis, e muito a ver com a merda. Merda.png

Quando contei a historia para outro professor, ele começou a rir, e falou,                              – Você sabe o sobrenome dela?                                                                                                Respondi que não, e ele falou,

Screen Shot 2018-10-28 at 21.35.42.pngPensando bem, ser Ms. Ruby é melhor que ser Ms. Shits? Sim.                                               Mas ser Ms. Abusada é melhor que ser Ms. Merda? Jamais. 

Uma vez no México, conheci uma moça. Ao ler o meu nome, ela cochichou no ouvido da amiga, – Seu nome é Ruby Shits. Seu nome é merda mesmo! –

Indignada, gritei – Meu nome não é merda, mas sua pronuncia sim é!!! –

Falando de pronúncia de merda, o que acham da minha? Tudo que falei até agora foi para aquecer os seus ouvidos. Quando falo português, alguns não conseguem me entender por um bon tempo. Seus olhos quase se fecham de tanta concentração. Tentam adivinhar de onde eu venho. Finalmente, a ficha cai. – É filha do Chaves!!!!! Chavo.png

Ok. Não sou filha do Chaves. Para começar, seu nome era

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Nada a ver com

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Alem disso, não sou mexicana. Morei no México muito tempo tentando dominar sua língua, mas foi ela que me dominou. Lembro o momento preciso que eu percebi isso.

Estava numa livraria no bairro onde moram meus pais. Um funcionario me perguntou – De onde você é?

Eu respondi – Daqui, do Brooklyn.

Ele continuou – Mas, onde você nasceu?

Eu respondi – No hospital, do outro lado da rua, e que se vê da janela.

Perplexo, ele perguntou – Mas, onde foi criada?

Respondi tranquilamente – Nesta mesma rua, a uma quadra daqui.

Ele não se conteve – Então, de onde vem este sotaque seu?

Aí, caiu a ficha. Depois de três anos em Guadalajara, México, meu corpo voltou para Nova Iorque mas meu sotaque ficou na fronteira.

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Falando do meu corpo, vista de frente, posso parecer irlandesa, alemã, americana e até russa. Vista de costas, meu deus!!! Será que sou brasileira?

Ok ok ok ok. Sabem que não sou brasileira. Sou do Brooklyn, com ípsilon.  Não confundam o Brooklin de São Paulo com o Brooklyn de Nova Iorque. O Uber não me leva até lá. Até tentei.

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Meio mundo no Brasil usa roupas estampadas com Brooklyn, NY. Sem ter visitado. Nem sabem onde fica. Eu testei essa teoria uma noite numa praia bahiana, num lapso de sanidade por culpa de umas caipirinhas feitas na rua. Perguntei a um rapaz com Brooklyn com ípsilon no peito se tinha visitado Brooklyn. Ele não entendia a pergunta, então perguntei de novo, e ele não entendia, e perguntei de novo.

Por fim, ele gritou, de saco cheio, – É só uma coisa de moda! –

Aí entendi a encrenca. Vocês lembram do tempo que levavam para aquecer o ouvido? Era isso.

Funciona também no sentido inverso. Meu ouvido também precisa aquecer. Vamos imaginar a cena. Eu estou aqui falando o meu português capenga. Você não está gostando.  Você me chinga. Não dou a resposta, porque eu não entendo. Depois de um bon tempo, fico paralisada ao compreender. De repente, tenho a resposta perfeita… só na minha cabeça.

Talvez ser professora de crianças não pareça uma boa profissão para praticar o humor, mas na verdade, é, sim. O dia inteiro, tenho uma plateia permanente. Têm que aguentar todas as piadas ruins que eu faço, coitadinhos! Sempre há uma ou outra que entende. Percebe-se pelo olhar deles, em três fases.

Primeira. A professora contou uma piada. Surpresa.

Segunda. Contou uma boa piada. Riso.

Terceira. Não é completamente chata. Respeito.

Óbvio que tenho que ter cuidado com crianças. Não posso falar de qualquer assunto. Percebi que era hora de procurar outras cobaias para minhas piadas.

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