Há vinte anos atrás, quando os celulares ainda não eram inteligentes, meu irmão teve uma ideia genial:
– Por que não temos uma maneira de saber quando vai chegar o metrô? Deveríamos ter algum equipamento que nos dissesse. Assim, não temos que perder nosso tempo e paciência. –
Hoje, temos aplicativos de trânsito para facilitar o planeamento de um viajem, para que seja mais curta. Mas, que chato, não? Prefiro ver cada percurso como uma aventura – como nos livros populares dos anos oitenta. A cada 5 páginas, tinha-se que decidir entre duas ou três opções, o passo a ser tomado.
No começo estou no Clube Latino Escola de Dança, no segundo andar, olhando através de um muro de janelas para a Rua da Consolação abaixo, no cruzamento com a Avenida Paulista. Acabo de ver Rodrigo e Karina dançar Zouk e ainda estou ruborizando. Troco meus sapatos de dança para outros para andar na rua. Me despeço dos meus amigos, desço as escadas, e enfrento a primeira decisão.
- Ônibus.
- Metrô.
Tenho dor no pé por usar saltos e ainda tenho credito no meu Bilhete Único. Descarto caminhar.
O ónibus que eu quero não vai passar pela Paulista porque é domingo, o dia das bicicletas. Fiz exercícios do abdómen que vão me ajudar não cair no ónibus amanhã. Mas, nesse momento, precisaria encontrar assento livre. Se não conseguir, vou sentir cada músculo tentando me manter de pé.
Vou de metrô. Só faz sentido tomar a linha verde, que vai direito à Vila Madalena. Lá, vou tomar com amigos que se consideram chiques, num bar da esquina onde ficaremos fechados como porcos, igual às pessoas que esperam ver uma bola luminosa cair no ano novo na Times Square.
Outra decisão.
- Caminho quatro quadras pela Avenida Paulista e entro direto na Estacão Consolação.
- Entro pela Estacão Paulista, a meia quadra, no mesmo lado da rua.
- Entro pela Estacão Paulista, a meia quadra, no outro lado, perto das Lojas Americanas.
Decido não decidir. Quero comprar milho do senhor que vende em frente ao cinema Caixa Belas Artes. Tenho que atravessar a rua, mas como?
- Pela rua, seguindo as regras, atravessando Avenida Paulista duas vezes.
- Pela rua, depois dos carros passarem de um lado, e antes que cheguem do outro. Correndo e rezando ao único deus em que acreditou, o deus do trânsito. Sou monoteísta.
- Pelo túnel embaixo da rua.
O túnel. Assim eu posso ver a arte de uma menina de nove anos que eu vi pintar o muro. Posso imaginar a vida do senhor que vende livros usados e toca jazz, o dia todo, sem sequer ver o sol. Penso que pode ser o ogro, esperando os bodes do conto. Na saída, posso admirar uma foto de Amy Winehouse e pensar como é terrível que já não cante, nem respire, mais.
Já subindo as escadas, compro meu milho, feliz por saber que logo meu estômago ficará tranquilo. Mas triste, porque não é o milho de rua que eu mais gosto… los esquites do México num copo com chile e queijo branco. O senhor do milho tem um sorriso e uma brincadeira para me esquecer uma terra deixada para trás.
Agora, como o milho na mão, tentando comê-lo sem queimar a língua, começo a caminhar. Mas, para onde?
- Estação Paulista
- Estação Consolação
Prefiro caminhar pela rua que entrar por Estação Paulista. Assim não tenho que descer cinco escadas rolantes, caminhar sobre o metro amarelo, logo um túnel, logo mais escadas, logo duas caminhadas rolantes, ate, em fim, chegar cinco minutos depois ao metro verde.
Assim tenho tempo para comer o milho enquanto caminho no ar libre, escutando a musica das bandas que tocam lá, vendo com ciúmes as pessoas nas suas bicicletas, e me convenço de não gastar nos colares expostos na calçada.
Mas agora é verão, e estamos em São Paulo. Há chuva. Começo a jornada ate o centro da terra que se chama Estação Paulista.
Chegando à plataforma, invade-me o pensamento de como a criação do espaço é impressionante. Há um caminho para os que vão descer e outro para os que vão subir. O mais impressionante ainda é que ninguém respeita a regra.
Chego a Vila Madalena e as decisões continuam.
- Caipirinha
- Chopp
- Long neck
Há vinte anos atrás, quando os celulares ainda não eram inteligentes, meu irmão teve uma ideia genial: