
Meu pai fica muito triste quando fala do dia que se encontrou com o seu pai na praça de Andover, a cidadezinha onde ele cresceu. Meu avô era caminhoneiro. Passava semanas inteiras longe da sua casa, onde morava minha avó com seus cinco filhos, todos homens. Meu pai era o número três, e assim era chamado.
Esse dia na praça, meu avô estava passando pelo centro do povoado no seu caminhão. Meu pai acenou para ele, emocionado mas surpreso porque pensava que seu pai ainda estivesse em viagem de trabalho. Meu avô falou uma frase que o marcou – Não fale para sua mãe que me viu. Não vou poder passar pela casa para encontrá-la, então é melhor que ela não saiba que eu estive aqui em Andover. –
Meu pai sempre sonhou que o meu avô tivesse um trabalho diferente, que lhe permitisse ficar em casa com mais frequência. Saber que o seu pai passou a umas quadras da sua casa sem dar uma palavrinha com sua mulher era demais para ele. Sentiu-se traído. Prometeu a si mesmo que nunca ia confiar no seu pai como sempre o fez, e nunca, nunca ia ser um pai igual a ele.
E não foi. Seu trabalho ficava perto de casa, e ele quase não viajava. Mas o trabalho nunca acabava. Às vezes chegava tão tarde que sua companhia pagava uma limusine para levá-lo de volta para casa. Eu tentava ficar acordada para vê-lo chegar, mas acho que nunca consegui.
Apesar dele ser viciado no trabalho, tinha um lado bom que se chamava a noite de Jazzercise. Uma vez por semana, minha mãe se encontrava com cinquenta mulheres na igreja Old First na esquina da Rua Três com a Avenida Sete. Elas limpavam a alma dançando estilo Jane Fonda numa sala gigantesca. A palavra Jazzercise é a junção de duas palavras, exercise com Jazz. Era a Zumba dos anos oitenta.
Para que minha mãe pudesse participar, meu pai tinha que chegar cedo em casa. Então, sabíamos que íamos vê-lo pelo menos uma noite por semana depois do trabalho. Gostávamos de passar a noite com ele mas a cereja do bolo era o que acontecia DEPOIS do Jazzercise. Minha mãe e um grupo de amigas – chamadas as Jazzercise girls – jantavam juntas e bebiam… muito. Às vezes ela chegava tarde, o que, pensando bem agora, podia ser as 22hrs. Na verdade, eu não tenho ideia.
Como meu pai não nos via muito, não se incomodava em manter a rotina e a disciplina. Por exemplo, nessas noites, não tínhamos hora de dormir. A única regra era que, na hora que minha mãe chegasse em casa, e passasse para ver se estávamos dormindo, tínhamos que estar na cama. Se não, minha mãe ia ficar brava com o meu pai, e ele não queria isso nem um pouco. Então, os três – meu pai, meu irmão e eu – desenvolvemos uma habilidade impressionante de escutar o momento quando a chave da minha mãe entrava na fechadura do portão.
Era um portão velho e minha mãe não era uma mulher delicada e ainda mas com três bebidas na cabeça. O barulho que ela fazia para abrir o portão era mas que suficiente para correr de qualquer parte da casa para o quarto, tirar a roupa, pôr o pijama, se meter na cama, e fingir que estava dormindo. Quando ela passava para dar um beijo e ver se que estávamos na cama, deixávamos que ela pensasse que nós acordávamos de um sono leve. Falávamos frases sem sentido e esfregávamos os olhos, choramingando com uma falsa frustração de termos sido acordados.
Nessas noites, minha mãe chegava sorrindo e tranquila. Se ela estivesse rindo, sabíamos que não tínhamos que fingir nada, e saíamos facilmente da cama para sentarmos todos juntos no sofá. Essas noites eram as melhores, e fazíamos mil coisas para mantê-la rindo, uma tarefa fácil demais. Sabíamos que no outro dia ela ia reclamar com nosso pai por não nos colocar na cama no horário certo, mas a reclamação acabaria quando a lembrássemos das piadas da noite anterior.
Eu tenho certeza que o meu pai nunca viveu noites assim com os seus pais. E minha mãe tampouco com os seus. É possível que só tenha acontecido um punhado de vezes, mas, na minha memória, eram todas as semanas, por muitos anos. Nunca vou perguntar para os meus pais se minha memória de criança era verdadeira. Às vezes é melhor ficar com a lembrança pura. Sua veracidade importa pouco.